Seminário de ATER deixa legado para o agro sustentável no país

Durante a última semana, mais de 600 profissionais ligados à assistência técnica e extensão rural se reuniram em Caeté, Minas Gerais, para debater o futuro da agropecuária sustentável no Cerrado com a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) como facilitadora.

O Seminário de ATER: desafios e alternativas para uma agropecuária sustentável e resiliente – conectando saberes, inovações, realizado pelo Projeto Rural Sustentável – Cerrado (PRS- Cerrado) em parceria com a EMATER-MG, reafirma o compromisso do Brasil e do IABS com a Agenda Climática, especialmente após a COP 30, sendo um importante espaço de diálogo sobre os desafios climáticos, produtivos e sociais que impactam o futuro do campo. Especialistas debateram temas como mudanças climáticas, políticas públicas, assistência técnica, mercados institucionais e tecnologias de baixa emissão de carbono. 

Além disso, o evento contou com o lançamento da Revista ELO, publicação realizada com apoio do PRS – Cerrado que reúne estudos e artigos sobre práticas extensionistas no campo, e o Guia Metodológico MEXPAR, que sistematiza a disseminação de conhecimento técnico produzido no campo. Os autores da Revista ELO estiveram presentes e participaram de uma mesa para apresentar os resultados de seus estudos.

A gravação completa dos três dias de evento está disponível no canal do IABS no Youtube.

Rede de disseminação de conhecimento e valorização da sustentabilidade no campo

Reafirmando a presença do seminário como um espaço para aqueles que levam técnica, conhecimento e sustentabilidade para o campo, o Diretor-Presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS) e Diretor-Geral do PRS – Cerrado, Luís Tadeu Assad, destacou, logo na abertura, que

“a sustentabilidade tem que ser vista, mas é fundamental um olhar para as pessoas que estão na ponta, no trabalho, […] todos aqueles que estão no campo ajudando os produtores para que eles possam produzir da melhor forma possível.”

Para os profissionais que trabalham todos os dias com produtores rurais, esse foi o grande destaque do evento. Mariel Camargo, coordenadora da ISOTEC, empresa parceira do PRS-Cerrado no estado de Goiás, destaca a importância dessas trocas de conhecimento para o fortalecimento das informações levadas aos produtores rurais e, consequentemente, seu desenvolvimento. “O produtor rural é a base da mudança, mas muitas vezes a informação não chega ao campo de uma forma consciente e reflexiva. Nós temos um poder de disseminação muito grande”, refletiu. 

“Essas informações serão disseminadas nos programas de atuação que nós estamos e consequentemente o impacto vem no campo.”

O extensionista Luís Carlos também reforçou a importância dos temas abordados e seu alcance até o campo. “A extensão leva ao produtor mais conhecimento e mais abrangência dos assuntos. Isso fortalece os elos e inclui o produtor também junto com a produção e a venda”, afirmou, acrescentando, a “ampla importância da questão das políticas públicas, do meio ambiente e do pequeno e médio produtor.” 

“Aqui a gente tá fazendo um diferencial, porque a gente tá falando dos atores principais do campo. A nossa razão de existir, de estar aqui discutindo algo é porque eles existem”, reforçou a palestrante Cristiane Correa, da EMATER-Pará. “Os técnicos de ATER que estão ali diretamente no dia a dia dessas famílias e gera uma unidade, um pertencimento e também uma aproximação do público, da realidade do público”, concluiu.

Mudanças climáticas e o Plano ABC+

Rodrigo Dantas, coordenador do Plano ABC+ no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), também participou como palestrante. Ele falou sobre a adaptação de sistemas produtivos e a adoção de tecnologias promovidas pela política nacional de agricultura de baixa emissão de carbono. Ele destacou essas práticas como, além de meios de enfrentamento às mudanças climáticas, estratégias de sobrevivência e resiliência do trabalho no campo.

“Quando você fala de adaptação e resiliência, nós não estamos falando apenas dos aspectos ambientais. Estamos falando também da resiliência econômica do próprio produtor. Em tempos de crise, com um sistema produtivo mais eficiente, ele vai ter condições de atravessar aqueles momentos difíceis de melhor maneira.”

Dantas falou, ainda, sobre o papel da assistência técnica como ponte entre o conhecimento, as políticas públicas, e os produtores rurais, visto que “não existe uma forma melhor de você capacitar um produtor do que por meio de uma assistência técnica.” “O objetivo final é fazer esse produtor desenvolver, prosperar e atingir os seus objetivos de vida”, acrescentou, frisando que o trabalho dos assistentes técnicos ultrapassa a orientação produtiva, trazendo contribuições para a geração de renda, a qualidade de vida e o desenvolvimento das famílias rurais.

O PRS – Cerrado trabalha diretamente com a implementação de tecnologias do Plano ABC+ no Cerrado, a exemplo da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e a recuperação de pastagens degradadas. Sobre isso, Dantas afirmou que enxerga “a política pública sendo feita desse tipo de parceria, desse tipo de conexão.”

A Diretora do Departamento de Produção Sustentável do MAPA, Mônica Holanda, destacou, ainda, a participação dos extensionistas na construção dessas políticas a partir da participação em Grupos de Trabalho (GTs) na construção de planos regionais. “Lá a gente tá desenhando o macro, vocês, da ponta, conhecem as especificidades”, disse.

Ela ainda destacou a importância das parcerias e do trabalho colaborativo para o avanço da agropecuária sustentável e implementação das tecnologias de baixo carbono nas cadeias produtivas. “A parceria do Programa Rural Sustentável é fundamentada em várias instituições”, afirmou, concluindo que “esse arranjo institucional, na verdade, é o que eu creio que pode fazer a coisa acontecer na ponta.”

Parceria PRS – Cerrado e EMATER-MG

Ainda falando sobre parcerias, o seminário marcou o trabalho cooperativo entre o Programa Rural Sustentável e a EMATER, iniciada ainda com a atuação na Mata Atlântica e ampliada com o PRS – Cerrado. “Isso tem colaborado muito tanto para o melhoramento da assistência técnica quanto para o aumento de renda e melhoria da qualidade de vida das famílias rurais”, afirmou Gelson Lemes, Diretor Técnico da EMATER-MG. “O seminário veio coroar isso, além de discutir a questão das práticas sustentáveis de produção”, concluiu.

Para Luís Tadeu Assad, o seminário é um espaço que permite aproximar o conhecimento técnico e as políticas públicas de experiências práticas, permitindo atualização profissional e a construção coletiva de soluções para a agropecuária sustentável. 

“São momentos como esse que a gente consegue trazer informação, debater, atualizar os extensionistas e discutir as inovações que a gente propõe.”

Segundo ele, a capacitação permanente dos profissionais que atuam com os produtores é indispensável na promoção de inovação e sustentabilidade no campo. Ele deixa, como reflexão, o questionamento:“Como você propõe fazer ações inovadoras sem ter uma capacitação, uma troca e uma discussão com quem faz a assistência técnica?”

Carta Aberta

O encerramento do Seminário de ATER foi marcado pela construção coletiva de uma Carta Aberta em defesa da assistência técnica e da sustentabilidade no campo

O documento reuniu reflexões debatidas ao longo do seminário,sintetizando as principais conclusões, propostas e encaminhamentos para o fortalecimento da ATER a partir de agendas de cooperação interinstitucional, investimentos na agropecuária sustentável e a formulação de políticas públicas. “Reafirmamos o compromisso coletivo por uma Assistência Técnica e Extensão Rural que se transforma para continuar transformando vidas, territórios e o desenvolvimento rural brasileiro”, a carta conclui.

Sobre o PRS – Cerrado

O Projeto Rural Sustentável – Cerrado (PRS-Cerrado) tem como missão mitigar emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e aumentar a renda de pequenos(as) e médios(as) produtores(as) rurais, promovendo a adoção de tecnologias de baixa emissão de carbono e práticas produtivas sustentáveis. 

O projeto atua em 101 municípios dos estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com mais de R$ 150 milhões investidos em ações e benefícios coletivos. No total, a iniciativa já capacitou mais de 8 mil produtores rurais e 1.200 técnicos de ATER, e impactou diretamente mais de 4000 Unidades Multiplicadoras (UMs), 200 Unidades Demonstrativas (UDs), e 45 Organizações Socioprodutivas (OSPs).

Com financiamento do Programa Internacional de Financiamento do Clima do Governo do Reino Unido, aprovado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o projeto conta com o MAPA como beneficiário institucional, execução do IABS, coordenação científica da Embrapa e apoio da Rede ILPF.