Evento de Encerramento do PRS-Cerrado marca o conhecimento como legado permanente do projeto

Após sete anos promovendo a implantação de práticas agropecuárias sustentáveis no Cerrado, o Projeto Rural Sustentável – Cerrado (PRS-Cerrado) encerrou suas atividades. O momento foi marcado por um Seminário de Finalização, realizado entre 5 e 6 de agosto, na sede do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS), em Brasília. Durante os dois dias, parceiros, beneficiários e a equipe executora se reuniram para relembrar experiências e aprendizados, compartilhar os resultados alcançados ao longo dos anos, e discutir o legado de conhecimento e cooperação deixados pelo projeto.

Abrindo o seminário, o Presidente do IABS e Coordenador Geral do PRS-Cerrado, Luís Tadeu Assad, relembrou a trajetória construída desde o início da iniciativa e prestou reconhecimento às equipes e instituições que participaram dessa trajetória.

“Não é fácil trabalhar no terceiro setor. Muitas vezes você tem a máquina de execução, mas não tem o poder de decisão”, afirmou. Ao destacar o encerramento do projeto, Tadeu ressaltou a importância de “passar uma resposta pública de tudo que foi feito”, celebrando os resultados alcançados sem deixar de olhar para os desafios futuros. Ele ainda prestou um agradecimento às equipes, parceiros e beneficiários que contribuíram para a execução das ações.

Representando o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luis Hernando Hintze destacou que a experiência construída pelo PRS-Cerrado demonstra como desafios locais podem gerar impactos positivos em escala global. Segundo ele, o compromisso assumido pelos parceiros fortalece o papel do Brasil como referência na promoção de uma agricultura sustentável, ao mesmo tempo em que evidencia a importância do trabalho desenvolvido diretamente nos territórios.

Ao agradecer às equipes que atuaram nos quatro estados atendidos pelo projeto, Hernando ressaltou que a mobilização junto aos produtores rurais foi essencial para os resultados alcançados. Também enfatizou que o conhecimento construído durante a execução permanecerá nas instituições e organizações parceiras que seguem atuando diariamente com os agricultores.

A importância da construção coletiva também foi destacada por Ladislau Araújo Skorupa, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, que ressaltou o trabalho conjunto realizado ao longo da execução do projeto e o papel dos multiplicadores na continuidade das ações. “Os multiplicadores são essenciais num projeto dessa grandeza e vão garantir a continuidade dessas ações”, afirmou.

Representando a Embaixada do Reino Unido, João Oliveira destacou que um dos principais resultados do PRS-Cerrado foi a comunidade construída em torno do enfrentamento das mudanças climáticas e da segurança alimentar. Segundo ele, o projeto foi capaz de aproximar diferentes atores, valorizar os conhecimentos das comunidades e promover uma troca permanente de experiências entre pesquisadores, técnicos e produtores rurais.

“Não precisa ser um encerramento. O fechamento de um ciclo nesse formato, mas as conexões formadas pelo projeto vão continuar e têm um efeito multiplicador”, afirmou. Para ele, o legado do PRS-Cerrado está justamente na continuidade dessas relações e no conhecimento compartilhado ao longo dos últimos anos.

Na mesma direção, a diretora do Departamento de Produção Sustentável do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Mônica Cavalcanti, destacou que um dos maiores resultados do projeto foi a presença constante das equipes junto aos produtores rurais. Ao comentar a realização de centenas de dias de campo e das ações desenvolvidas nos municípios participantes, afirmou que esse trabalho “olho no olho do produtor”, baseado na presença e na construção de conexões nos territórios, representa uma das entregas mais significativas do PRS-Cerrado. Também ressaltou o alinhamento das metodologias aos princípios do Plano ABC+, especialmente pela valorização da governança regional e local e pelo protagonismo das equipes que conhecem as necessidades de cada território.

Já a Coordenadora Operacional do PRS-Cerrado, Kamila Rocha, apresentou um panorama da trajetória do projeto, destacando sua estrutura, as principais frentes de trabalho e os legados construídos ao longo dos sete anos de execução. As informações foram o ponto de partida para painéis temáticos realizados durante o seminário, que aprofundaram as experiências vividas em cada âmbito de atuação.

Vozes do Cerrado mostram como o projeto transformou realidades nos territórios

Olhando para os resultados concretos na vida de quem foi impactado pelo PRS-Cerrado, o seminário colocou em destaque as histórias dos produtores rurais beneficiários.

Thiago Ferreira Costa, representante da Cooperativa da Agricultura Familiar de Unaí (COOPERAGRO), de Minas Gerais, relembrou os desafios enfrentados para mobilizar os produtores rurais e consolidar o trabalho da cooperativa. Segundo ele, o PRS-Cerrado foi o primeiro projeto a investir na organização, fortalecendo sua atuação junto às famílias agricultoras. “A credibilidade foi sendo conquistada conforme as coisas aconteciam e as pessoas conheciam o projeto”, destacou, ao afirmar que a expectativa é dar continuidade ao trabalho e ampliar o atendimento a outras famílias da região.

Experiência semelhante foi compartilhada por Miguel Henrique da Silva, da Associação dos Pequenos Agricultores do Município de Sapezal (MT). Ele relembrou a trajetória da organização no apoio aos pequenos produtores e destacou que o PRS-Cerrado representou o primeiro incentivo externo recebido pela associação, por meio da assistência técnica e das capacitações. Ele ainda destacou a diferença que os benefícios coletivos fazem na vida dos pequenos produtores.

A valorização da agricultura familiar e da atuação das mulheres também esteve presente. Representando a AESAGO, a Irmã Maria Inês de Oliveira destacou que o apoio do projeto fortaleceu a entidade e ampliou as condições de trabalho dos pequenos produtores. Ela falou sobre como é possível conciliar produção de alimentos e conservação ambiental. “Não temos o direito de devastar o Cerrado para produzir alimento. Dá para fazer tudo junto, protegendo o Cerrado e produzindo alimento de maneira muito limpa”, afirmou.

Maria José Vieira, da Associação de Santa Luzia (MS), também relembrou as dificuldades enfrentadas pela comunidade antes da chegada do projeto, quando faltavam recursos e equipamentos para a produção. Segundo ela, o PRS-Cerrado contribuiu para transformar a forma de produzir e fortaleceu a participação das mulheres na busca por novas oportunidades para a comunidade. “O PRS, em toda a minha vida, foi o único projeto que veio de encontro com os pequenos produtores, que chegou diretamente nos pequenos e médios produtores”, destacou.

O protagonismo feminino também marcou a trajetória da AGROBIO, em Goiás. Marivalda Aparecida dos Santos relatou os desafios enfrentados por um grupo inicialmente formado por nove mulheres para acessar recursos e consolidar a organização. Ela destacou que o apoio das políticas públicas e os investimentos realizados pelo PRS-Cerrado foram fundamentais para fortalecer a associação e incentivar a participação feminina.

Representando a Associação da Comunidade Negra Rural Quilombola Chácara do Buriti (MS), Lucinéia de Jesus Domingos ressaltou que o projeto promoveu impactos positivos em todas as comunidades atendidas e fortaleceu iniciativas como a padaria das mulheres, a agroindústria da mandioca e a produção de mel. Segundo ela, além das melhorias na estrutura produtiva, o projeto impulsionou o desenvolvimento pessoal dos participantes e fortaleceu a organização comunitária, estimulando os jovens a permanecerem no território.

O representante da comunidade Haliti Paresi, Kevelen, também falou sobre a experiência de seu povo. Ele destacou que a parceria com o PRS-Cerrado contribuiu para transformar a forma de desenvolver a agricultura familiar dentro da Terra Indígena, respeitando as características e os desafios locais. Ela agradeceu o apoio técnico recebido durante a execução do projeto e ressaltou que os conhecimentos compartilhados fortaleceram a cooperativa e a produção voltada ao abastecimento das próprias comunidades.

Assistência técnica, capacitação e pesquisa: o conhecimento como legado do PRS-Cerrado

Além das histórias de impacto, as discussões realizadas ao longo do seminário evidenciaram que um dos principais legados deixados pelo PRS-Cerrado está na construção e disseminação do conhecimento. Diferentes painéis destacaram como os eixos de assistência técnica, capacitação e a pesquisa contribuíram para fortalecer produtores rurais, organizações locais e profissionais que seguem atuando nos territórios.

A Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) foi apresentada como um dos pilares da metodologia adotada pelo projeto. Ao apresentar a trajetória do PRS-Cerrado com a ação, a coordenadora Marília Ramos destacou que a estratégia foi construída para combinar tecnologia, sustentabilidade e melhoria das condições de vida dos pequenos e médios produtores rurais.

Ela lembrou que o projeto estruturou uma trilha metodológica própria, iniciada ainda durante a pandemia, que envolveu a seleção das empresas executoras, a criação de um sistema de acompanhamento das atividades e a definição das Unidades Demonstrativas (UDs), Unidades Multiplicadoras (UMs) e Organizações Socioprodutivas (OSPs) participantes. Também apresentou a Carta de Recomendações elaborada durante o Seminário de ATER, que reúne propostas para fortalecer institucionalmente a assistência técnica e ampliar a integração entre entidades públicas e privadas.

Os participantes ressaltaram que o diferencial da metodologia esteve na proximidade com os produtores e na adaptação das soluções às realidades de cada propriedade. Para Nauto Martins, coordenador técnico estadual de Bovinocultura da EMATER-MG, “os técnicos são agentes de desenvolvimento” e o trabalho deve manter o foco nas pessoas e em suas necessidades. “Não tem como encerrar algo que se torna perene quando você traz conhecimento”, afirmou ao destacar que a parceria ampliou o acesso dos produtores a uma assistência técnica “de mais qualidade, de mais consistência”.

A permanência desse legado também foi destacada por Adriano de Arruda, da SIMBIOSE, ao afirmar que o projeto contribuiu para a formação de capital social e capital técnico nos territórios, fortalecendo as conexões entre organizações locais e outras instituições parceiras. Já Marcos Mariani, da SECAF, lembrou que projetos dessa natureza “são movidos por pessoas” e ressaltou o papel dos monitores de campo na articulação entre produtores, organizações e equipes técnicas, além da necessidade de ampliar o acesso das comunidades rurais a direitos e serviços básicos.

Na perspectiva dos beneficiários, o produtor rural Otacílio Cândido destacou que um dos diferenciais do PRS-Cerrado foi a metodologia utilizada para construir diagnósticos e planos de negócio junto aos produtores. Segundo ele, conquistar a confiança das comunidades exige diálogo e participação. “Nem toda ideia vai conseguir a confiança do produtor”, observou, ressaltando que esse processo foi fundamental para estimular o trabalho coletivo e fortalecer as parcerias construídas pelo projeto.

A educação também ocupou espaço central na programação. Os participantes reforçaram que a formação de produtores, técnicos, estudantes e lideranças foi uma estratégia para garantir que os conhecimentos desenvolvidos durante o projeto continuem sendo multiplicados após o encerramento das atividades.

A coordenadora de Capacitação do PRS-Cerrado, Deimiluce Lopes, explicou que as ações educativas foram estruturadas para diferentes públicos, respeitando as especificidades de cada grupo e construindo trilhas formativas voltadas à aplicação prática dos conteúdos.

Entre as iniciativas apresentadas estiveram os cursos presenciais, formações a distância, polos de apoio presencial, ações de popularização da agricultura sustentável nas escolas e o programa de mestrado profissional desenvolvido em parceria com universidades. Também ressaltou que a capacitação dos profissionais de assistência técnica foi parte essencial da estratégia para garantir uma atuação alinhada em todos os territórios atendidos.

As experiências apresentadas mostraram que os impactos dessas ações ultrapassaram o ambiente acadêmico. A professora Mariza Fernandes relatou como o projeto mobilizou estudantes, famílias e a comunidade escolar em torno das iniciativas, a partir das ações de popularização. “Eles tinham que ver acontecendo para acreditar”, lembrou ao relembrar os primeiros contatos da comunidade com o projeto. Segundo ela, o envolvimento coletivo fez com que os estudantes passassem a valorizar o próprio território e reconhecessem o conhecimento como parte do legado deixado pelo PRS-Cerrado.

A geração de conhecimento também foi apresentada como uma base para a inovação no campo. Ao abordar a frente de pesquisa do projeto, a coordenadora Marcela Vidal destacou que os estudos desenvolvidos buscaram responder a desafios específicos do bioma Cerrado, aproximando a produção científica das demandas observadas nos territórios. Segundo ela, os projetos apoiados permitiram construir soluções mais próximas da realidade dos produtores e fortalecer a adoção de tecnologias sustentáveis.

Essa conexão entre pesquisa, assistência técnica e capacitação foi retomada por Luís Tadeu Assad durante o painel, ao defender que o conhecimento precisa estar acessível para produzir transformações concretas. “A ação precisa vir do conhecimento, precisa vir com capacitação”, afirmou. Para ele, “a pesquisa é uma semente que transborda, que cresce ao longo do tempo”, reforçando a importância de fazer com que esse conhecimento alcance quem está no campo.

O debate foi complementado por discussões sobre finanças verdes, regularização ambiental e sustentabilidade produtiva. Os participantes destacaram iniciativas voltadas à certificação de propriedades, acesso ao crédito rural, regularização ambiental e implantação dos Benefícios Coletivos, estratégias que buscaram criar condições para que produtores e organizações pudessem dar continuidade às práticas sustentáveis e ampliar seu acesso a mercados e oportunidades de investimento.

Um legado que permanece

Na solenidade de encerramento oficial, representantes das instituições parceiras refletiram sobre os próximos passos para o desenvolvimento rural sustentável e reforçaram que os resultados do PRS-Cerrado ultrapassam o período de execução da iniciativa. Entre os temas debatidos estiveram a inclusão de mulheres e jovens, o fortalecimento das políticas públicas, a ampliação das parcerias e a continuidade das redes construídas ao longo do projeto.

Representando a Embaixada do Reino Unido, João Oliveira destacou que os desafios relacionados às mudanças climáticas e à segurança alimentar são comuns a diferentes países e afirmou que a rede formada pelo PRS-Cerrado representa “uma semente que foi plantada e tem muitas possibilidades de multiplicação de resultados”. Já Rodrigo Dantas, coordenador do Plano ABC+ no MAPA, ressaltou que a experiência demonstrou a importância de integrar as políticas públicas estaduais para promover mudanças duradouras no meio rural.

Os parceiros reforçaram que o maior legado do PRS-Cerrado está no conhecimento compartilhado, nas capacidades fortalecidas e nas relações construídas entre produtores, técnicos e organizações ao longo dos sete anos de execução. Ao agradecer às equipes e parceiros envolvidos, Luís Tadeu Assad destacou que esse patrimônio coletivo representa o ponto de partida para que as ações desenvolvidas pelo projeto continuem gerando impactos positivos no Cerrado.

A finalização contou, ainda, com a Premiação de Boas Práticas. rodutores rurais, profissionais de assistência técnica, organizações socioprodutivas, monitores de campo e instituições parceiras receberam homenagens pelas contribuições ao fortalecimento da agricultura sustentável nos territórios atendidos. Confira os premiados:

  • Categoria 1 – Produtores (as) Rurais

    • Pollyana de Pádua Neves de Oliveira (FAZENDA SÃO JORGE – GO) 
    • Lourenço Serraglio (MS)
    • Ana Paula Grill Seemann (Flor do Cerrado – MS)
    • Emerson Trogello (GO)
  • Categoria 2 – ATER

    • Vanessa Oliveira Franzin (GO – Fazenda São Jorge – ZOOTEC) e Suellen de Paula Fernandes (SIMBIOSE – MS – Lourenço Serraglio)
    • Ana Carolina dos Santos (MS) e Everton Mendonça Quintino (MS)
    • SIMBIOSE (MS)
  • Categoria 3 – OSPs

    • AMTR (MS) 
    • Associação dos Produtores do Assentamento Aldeia (MS)
    • Sindicato Rural de Lagoa Grande (MG)
    • Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Assentamento São Thomé – APPRAST (MS)
  • Categoria 4 – Monitores de Campo

    • Lucas Godinho (MG)
    • Ernando Aguilar (MS)
  • Categoria 5 – Menção Honrosa

    • SEMADESC (MS)
    • EMATER (MG)
    • BRACELL (MS)